Monday, March 07, 2005

Os Marceneiros

Carpenters e Napalm Death, tão perto e tão longe. Ambos extremos, ambos fina flor dos seus prados verdejante/incinerado.

Comecemos por Karen e Richard, os irmãos Marceneiros. Olhem para eles:
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Faço-vos o favor de colocar uma foto a preto e branco. E sem florzinhas e passarinhos. Que as há.

A música dos Carpenters é extrema. Sem compromissos. Brutal. O som mais pauleira que possam imaginar, mas do outro lado do espelho.

Esqueçam o amaciador da roupa, basta pôr um disco dos Carpenters enquanto a máquina lava. Mas se são atreitos a cáries, MUITO CUIDADO! É música com teores alarmantes de açúcar. Nada de adoçantes, açúcar mesmo, às colheradas.

Uma bateria de peluche, arranjos de cordas acetinados, pianadas regadas com xarope de anis, as cantigas dos Carpenters são o remédio quase perfeito para a azia, com o perigo de induzirem o vómito às almas mais sensíveis, se consumidas em excesso.

Para quem não faz ideia do que estou a falar, puxe pela memória e tente lembrar-se de "Every sha-la-la, every woh-oh-oh"... de "Why do birds suddenly appear, everytime you are near"...de "Rainy days and mondays always get me down"...nada? Oh well.

Essencialmente, a música dos Carpenters é a voz de Karen Carpenter. O resto é água. Uma voz capaz de fazer secar de vergonha as laringes de todas as "divas" dos últimos vinte anos.

Ouvir os Carpenters pode não ser um prazer culpado, desde que se preste atenção. Formalmente, não há muito a dizer, a impressão mais forte é de cantilenas de elevador e rádio nostalgia.

É nas letras que reside o maior valor. Obsessões, depressão, vazio existencial, está tudo lá (mas na maior parte das vezes é preciso enxotar os passarinhos). Tragam-me então os vossos Joy Divisions e Echos e Cures, que comparamos cromos. A questão é que os Carpenters nunca tiveram sentido de humor e nunca tomaram xarope pós-moderno. Aquilo, minha gente, era do coração.

Há uma qualidade que David Lynch não desdenharia, que se lê nas entrelinhas e se desvenda quando se vê mais ao perto. Havia térmitas nas cercas brancas a debruar os relvados suburbanos da América branca.

Karen Carpenter morreu aos 33 anos, pálida e esquelética, com o coração destruído por anos de vómito auto-induzido e dietas, vulgo anorexia. Isto era o dia a dia dela há anos, enquanto andava por aí cantando "Top Of The World" e "Superstar". E mais não digo para não ser piegas.

O irmão, Richard, também passou pela detox. Hoje, vive às custas do rendimento. Por isso, como se vê, uma família rock n' roll às direitas.

Nunca foram igualados. E não foi porque os outros que vieram tivessem vergonha de lá querer ir. Mas não é para qualquer um, ser assim tão bom. Qual prazer culpado, qual quê!

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