Thursday, February 24, 2005

Discos ao vivo

Gosto muito de discos ao vivo. À falta de ir a concertos, é a melhor alternativa (no dizer luso, "the next best thing").

Dos elefantes brancos dos Pink Floyd às cassetes piratas ainda a cheirar a tabaco e suor dos Ramones, um disco ao vivo é um momento. Foi naquele(s) dia(s), naquele(s) sítio(s). E não raras vezes, gosto mais de uma versão ao vivo do que a versão original, gravada em estúdio.

Por isso, discos ao vivo é algo de que falarei recorrentemente aqui. Aturem-me (fáxavôr).

E o primeiro, sem qualquer ordem, é:


DEAD CAN DANCE - "Toward The Within"

- Muitas vezes, o que impede um disco ao vivo de ser bom (ou no mínimo, audível e prazenteiro) é o som. Não contem comigo para piratas (em bom português, "bootlegs"). Podem ser uma curiosidade agradável, que se escuta de vez em quando, mas a maior parte das experiências que tenho dizem-me para me afastar.

Não é o caso deste "Toward The Within". Cristalino, é o que isto é. Um concerto dos Dead Can Dance (que estão amiguinhos outra vez e até vêm a Espanha dar as boas-vindas à Primavera) em Los Angeles, no teatro Mayfair, que por sinal já não existe, a seguir à edição da jóia "Into The Labirynth".

Para além de uma plétora de cantigas e modinhas que nunca foram a jogo em estúdio, temos leituras de temas antigos que ganham nova vida. "Cantara", por exemplo. A melopeia gótico-engraçada torna-se arrepiante, com uma selvajaria de percussão que faz Lisa Gerrard soltar aquela garganta de sereia ululante. E atenção, sempre achei que a metade feminina do duo era o que menos me fazia gostar do grupo. Eu sei, "The Host Of Seraphim" e isso tudo. Está bem, mas continuo a preferir o vozeirão grave e sério do careca Brendan Perry.

E isso leva-nos por exemplo a "I Am Stretched On Your Grave", uma versão da cantora careca O'Connor. Óptima para musicar excertos de filmes em câmara lenta, é A ÚNICA música sobre amor para além da morte que não se embaraça a si própria ou ao ouvinte (Se bem que "Amor Eterno" dos Mata-Ratos...).

E leva-nos também ao ciclo "I Can See Now"/"American Dreaming". É encantador E não é foleiro. Faz a cabeça enroscar-se à lareira. Perry revela os dotes de baladeiro folk, que chegam ao zénite em "Don't Fade Away". Esta é a única música possível de ouvir ao amanhecer, quando se passou a noite acordado, a fazer qualquer coisa extraordinária e nada vai ser como dantes. Maior do que a vida.

E mais? Ora, há "Sanvean", que já antecipava a tendência da sra. Gerrard para as bandas-sonoras. E há coisas que invocam beduínos, há muito espaço no som para todos os instrumentos, há palminhas só entre as faixas e nenhum paleio.

Este disco tem o vídeo correspondente, disponível em DVD, sozinho ou integrado no caixote "1981-1998". Mas devo dizer que, tendo ouvido o disco primeiro, estava à espera de mais. Não é mau, entenda-se, longe disso. Mas é um bocado desencorajador, visualmente.

O palco está atravancado e cheio de gente. Lisa Gerrard parece um fantasma, no jeito, aspecto e guarda-roupa. Brendan Perry parece um tipo que teve recentemente alguma sorte na vida, depois de anos a vender a "Cais". E os outros ou são freaks ou geeks. Longe de mim ser elitista ou julgar as pessoas pelo aspecto exterior, mas caramba, aquela gente é lá dos artistas. Pedia-se mais.

Recomendado sem reservas.

2 Comments:

Blogger irmamolada said...

Nãooooo! Discos é coisa que ninguem imaginaria que preenchem o teu espaço ... irmaamolada

10:06 AM  
Blogger Ioachimescu said...

Comenta o dos Cure em Paris. E aquele que tem a melhor versão do "Pictures of You".

4:43 PM  

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