
Vitorino é um gajo porreiro. Algumas das minhas primeiríssimas memórias musicais são da sua "Leitaria Garrett", "Tragédia da Rua das Gáveas" e claro, a menina que estava à janela. Tudo por culpa de um professor da escola primária, que fazia parte de um grupo de música tradicional, os Terra a Terra, e tinha umas ideias interessantes de Educação Musical. Além de Saint-Saëns e da 5ª de Beethoven assoprada na flauta de bisel, metia-nos também nos Boney M, mas em versão a capella, algo que ainda hoje estou para perceber.
Mas Vitorino, um alentejano do Mundo, já merece um culto. É certo que também fez umas merdas, mas nunca nada que lhe fizesse cair os parentes na lama. É daqueles tipos com quem apetece beber copos e falar serões a fio. Há uns anos visitei a sua terra natal, o Redondo, e na loja de um sapateiro lá estava, recortado de uma TV Guia qualquer, cheio de pó, o retrato do filho da terra. O irmão Janita pode ter uma das vozes mais dilacerantes de que me lembro, mas Vitorino é definitivamente merecedor do primeiro troféu "Um Gajo Porreiro" do Amolador.
Tenho para mim que "Sul", a canção, é dos melhores lava-almas que conheço. Urgente, batida pelo vento, a cheirar a planície molhada, é alentejana até ao tutano e ao mesmo tempo ultrapassa completamente o rótulo "étnico" ou "regional". Parece algo saído de um universo alternativo, em que os Joy Division tivessem estagiado no Grupo de Cantadores do Redondo. Só por isto, já vale a pena alguma vez ter cantado.
Mas há muito mais. Há Vitorino PREC, há Vitorino cronista de Lisboa que já não existe, Vitorino que canta como quem declama, histórias, História, tanta tanta coisa. A voz e a boina. Culto, JÁ!

Outro Gajo Porreiro que, para felicidade de todos, até rima com o anterior, é Brian Eno. Ou "And now for something completely different". A quem se assuste com as conotações arty (Que é isso do "ambient"? Que é isso das "oblique strategies"? Que é lá isso de um gajo careca ser cabeludo? Que é lá isso dos vestidos?), posso só falar de dois discos: "Before And After Science" e especialmente, "Another Green World". Praticamente tudo o que já ouviram há-de lá estar, e ao mesmo tempo, só conseguirão pensar "Mas como é que eu nunca ouvi isto antes?".
Como só os génios, Brian Peter George St. Baptiste de La Salle Eno sacode a careca e caem pérolas no chão. É mágico da corte, descobridor da Antártida, desbravador de África e colonizador de Marte, tudo de minuto a minuto e muitas vezes ao mesmo tempo.
Claro, há as colaborações com os U2, com os James, e outras jornadas fora da terra dos sonhos. Mas isso era Eno a emprestar o pó mágico a outros. A melhor maneira de o ouvir, não, não de o ouvir a ELE, (porque o Eno que verdadeiramente interessa é aquele que não se vê, só se sente) , mas aos discos, é escolher um ao acaso, como tirar uma carta de um baralho na mão de um mágico. Pick one.